dezembro 07, 2007

Mar e amor podiam rimar, e eu disse isso em voz alta. Ela perguntou "o quê, pai?", e eu respondi "eu só disse mar", porque ela talvez não entendesse a segunda palavra. "E amor, pai?" "É o que está escrito nos olhos da tua mãe, lá na areia". Ela pensou em voz alta: "quando eu for grande, eu vou saber ler o que tá escrito no olho da mãe?" "Vai". Ela sorriu e depois apoiou o rostinho nas nossas duas mãos dadas: "pai, posso por enquanto mentir que amor é a tua mão na minha mão?"

Pela primeira vez, eu engolia o mar nos olhos para poder dizer tão somente três palavras: "pode, minha filha".


Dentro do Olho Dentro, de Altair Martins

4 comentários:

Anônimo disse...

Lindo este texto, lUrdes. O Amilcar é muito bom. Por isso não acontece. E por outras razões que a gente conhece. Tô surpreso por ninguém expressar sua opinião até agora. Inté. sergionapp.

Nessita! disse...

nossa, que lindo isso! simplesmente lindo!

IcaroReverso disse...

O olho... sabe que o olho merece uma puta antologia, de artistas e outros gajos? antologia permanente. porque a gente olha e olha, de modo subjetivo, mas sempre olhando o de fora, sendo realista. Tem o "Com os meus olhos de cão", da Hilda Hilst, e o "História do olho", do Bataille, que gosto muito. Curioso por ler esse Altair... até.

Lu Thomé disse...

Napp: é esse o livro que eu quero te emprestar. Ou tu tens?

Nessita: eu não me canso dele...

Icaro: ótimas dicas literárias. Vou procurar. Não me canso dos olhos. E principalmente dos olhos na frente do espelho, refletido em outro espelho, olhos e outros olhos olhando outros espelhos e olhos... O infinito...

Beijos!