março 18, 2009

Certo, a história poderia começar assim, aqui, desta forma, de maneira um tanto lerda e lenta, neste reduto neutro que é de todos e não é de ninguém, onde as pessoas se cruzam quase sem se ver, onde a vida do prédio repercute, distante e regular.

Quem me conhece, já conversou comigo, tomou um café comigo, dividiu um sorvete comigo ou ouviu alguma vez qualquer uma das minhas angústias existenciais, sabe.

Eu esperei cinco anos para ler as linhas do primeiro parágrafo desse post. Cinco anos. Portanto, na noite de hoje, momento em que escrevo para os poucos que me visitam por aqui, digo com o maior orgulho do mundo: tenho em minhas mãos um exemplar de A Vida Modo de Usar, de Georges Perec.

Sei que para alguns vai parecer bobagem. A perseguição por um livro esgotado, que nunca se leu, e simplesmente se ouviu falar de outras pessoas que, há dez, 15, 18 anos perseguem essa que é a única edição em português. Muitas pessoas tentaram me dar esse livro (Oi, Mari). Outras lembravam de mim e do Perec até quando estavam no exterior (Oi, Marcelo). Mas, por uma coincidência do destino, coube à minha querida amiga Andréia Vargas a descoberta, quase acidental, de um exemplar na Ventura Livros. Sim... Um sebo... Em Porto Alegre. Obra cadastrada poucos dias antes.

Pode parecer sem sentido. Eu só não chorei sem parar quando a Déia me entregou o pacote, com uma linda dedicatória na embalagem, porque eu virei moça de chorar sozinha. Assim como estou agora, com a mão sobre a capa do livro. Pode realmente parecer nada. Mas no momento em que me sinto mais perdida do que jamais estive, uma grande amiga me entrega esse que é um manual até no título. Da vida.

Sinceramente, eu choro porque tenho medo de ser verdadeira. Eu choro porque não quero reconhecer que alguns caminhos que escolhi são mais tortos do que os meus sapatos suportam. Eu choro porque desisti de viver e fico esperando que tudo aconteça, ao invés de fazer acontecer qualquer coisa que seja.

No meio do meu inferno astral, recebo nas minhas mãos esse presente antecipado de aniversário, um símbolo, um divisor das águas da minha vida. Como se fosse a minha mensagem da garrafa, que diz: sai dessa ilha. Olha o mar. Olha aquelas ondas lá onde não se enxerga mais nada. E não tenha medo delas. É fundo, é desconhecido. Mas é só água...

Sim, talvez eu não durma essa noite. Porque acho que não precisarei de ritual algum para dar esse primeiro passo, para passar de uma folha a outra.

Pode parecer totalmente surreal. Mas essa foi uma das maiores demonstrações de carinho que eu já recebi na vida. Do tipo: olha quem acredita em ti. Por que tu não faz o mesmo? Pois me digam: se essa é a prova de que nada é impossível no mundo, se tudo que desejamos podemos alcançar, do que eu tenho medo? De tentar?

Déia, talvez eu não durma hoje. Talvez eu não queira mais sequer sair de casa sem meu livro. E tu sabe, tu sabe como ele é importante pra mim (e talvez não saiba o quão importante foi receber esse livro hoje, nesse momento).

Obrigada, obrigada, obrigada, Déia! Te amo de verdade, amiga!

Certo, a história poderia começar assim, aqui, desta forma, de maneira um tanto lerda e lenta, neste reduto neutro que é de todos e não é de ninguém, onde as pessoas se cruzam quase sem se ver, onde a vida do prédio repercute, distante e regular.

Que comece, então!

10 comentários:

marceloj disse...

Bah, Lu, decididamente não é à toa que ESTE livro aparece na TUA vida agora. Eu sei, um pouquinho, do quanto TU buscavas ESTE livro. E sei como é namorar um livro tanto tempo e ter até um certo medo de conhecer a história:
"Quanto mais vou sabendo de ti, mas gostaria que ainda estivesse viva. Só dois ou três minutos, o suficiente para te matar" - são as primeiras palavras d´O amor é fodido, do português Miguel Esteves, que eu nunca consegui ler além do primeiro parágrafo.

Também corri atrás desse Manual por ti, mas vai ver não era a hora certa.
E Perec, aliás e de novo, foi-me sugerido outro dia (num momento bem importante, quando uma das professoras da banca fazia suas considerações, e adivinha de quem eu lembrei?).

Um dia eu vou querer esse Manual emprestado, viu? Mesmo com as sábias considerações dum norte-americano que esqueci o nome agora: "Existem dois tipos de idiota no mundo: os que emprestam livros e os que devolvem".

Muito boa sorte e muitas boas energias pra ti nesse momento e nessa leitura que vai ser, sim, muito especial e importante pra ti.
Uma leitura tipo assim que nem tu: especial, Lu querida.
Força aí e NÃO me conta, nunca, do que trata esse manual, combinado?

Moni Thomé disse...

Luka's
Muitas vezes na vida parece que TUDO está dando MUITO errado. Alguém sempre nos faz sentir menor que uma formiga, passível de levar uma pisada esmagadora e mortal.
Todos vivemos isso, em alguns momentos. Mas acredito que as coisas erradas devem acontecer, simplesmente por trazer com elas as coisas certas.

Agradeço até hoje por muitas coisas erradas que aconteceram comigo. Agradeço por passar por momentos miseráveis e dolorosos. Lembra, que foi um desses momentos de angústia e muita merda jogada no ventilador que voltei pra casa!!!

Que teu momento de vida cruel passe. A tempestade sempre traz um dia lindo e um sol radiante!!!
Olha bem ao teu redor, e comece a ver os raios de sol aparecendo!!!

Depois que a tempestade passar, teu dia lindo vai ter até passarinhos cantando!!!

Beijão...

andreia disse...

lulu,
agora quem chorou fui eu...
eu sabia sim, ha anos, da tua busca pelo perec, mas tens razao quando falas que eu nao sabia que o momento era tao, mas tao apropriado pra te entregar este livro. tenho mais certeza agora de que nao foi a toa que ele cruzou o meu caminho, no dia do meu aniversario, no meio do teu inferno astral. um exemplarzinho so, num sebo escondido. ele mal sentou na prateleira e la fui eu busca-lo! nao foi a toa, amiga querida! era teu este livro! ha anos! foi emocionante pega-lo nas maos. foi um presente pra mim tanto quanto o foi pra ti, tenhas certeza disso. tu es minha ispiracao na literatura, no teatro, no cafe, na vida... tu nao podes jogar a toalha, jamais! es tu quem faz tua vida acontecer, entao, maos a obra! se os caminhos sao tortos, rodopia e faz uma danca pela estrada, mas nao senta e espera que ela se endireite! e aproveitando a citacao que fez o marcelo ali em cima, vamos combinar uma coisa: sejamos idiotas juntas!! um dia tu me emprestas este livro, e eu te prometo que o devolvo! te adoro um montao! mil beijos.

Mari Thomé disse...

Luli,
Chorei também. Muitos comentários emocionados pra alguém que a emoção atual é pavor e dor.
a gente se perde muito e em muitas ocasiões da vida. Medo de errar é não viver. Espero que esse livro ache as palavras certas pra te explicar isso.
Quero ler também. Cansei meus olhos em sites à procura. Muitas vezes quis te fazer essa surpresa. Mas mesmo com aquela invejinha de não ter sido eu, acho que o destino já estava te ajudando quando colocou a Déia na tua vida. Desde o primeiro segundo. Se não fosse por ele, todos os outros momentos não seriam o mesmo destino geral. Acredito muito nisso...
E tu, mana mais velha, agora está munida pra me ensinar mais ainda sobre a vida. Bom esse destino, né? com todos nós!!

Te amo!!

andreia disse...

e foi tanta emocao que faltou o "n" da inspiracao :P

Demofilo Fidani disse...

Olha que coincidência. Não me empenhei numa busca ao "santo graal" como voce afirma ter feito em relação a este livro. Mas soube da existência dele apenas através da famosa lista dos 100 maiores romances do século XX feita há 10 anos pelo jornal FSP. Então dia desses me deparei com um exemplar surrado e empoeiradíssmo dele num sebo aqui da cidade. Não adquiri; provavelmente ele ainda deva estar lá. Não sabia que ele era assim tão raro de se encontrar. Lendo essa sua declaração de amor a tal livro quase me dá vontade se sair correndo para comprá-lo. Será que vale a pena?

Lu Thomé disse...

Marcelo: querido! Me lembrei muito de ti ontem. Me lembrei também, que no meio de toda essa confusão, tu defendeu teu trabalho num meu dia caótico, que começou com atraso e terminou em embarque no Salgado Filho! Como foi? Me manda e-mail? Posso pegar um avião e te visitar? Deixa... Deixa... hehehehehe

Moni: eu vi o sol hoje. Usei óculos escuros, porque estou desacostumada. Mas logo dou um jeito nisso - hehehehehe.

Déia, querida!!!!!!!!!!! Já comecei a ler ontem. Já dei discursos sobre o livro. Mostrei pra todo mundo ontem lá no Cult. Fiquei com ele no colo, abraçada, para ter certeza de que ninguém o levaria de mim - hehehehehehe. Mãos à obra... Sim... Ah! O livro é ótimo!

Mari: sei dos teus olhos secos. Da tua vontade de encontrar esse livro. Mas isso pra mim já é tudo também!!!

Déia, querida! De novo! Que "n" o que?!?!?!?! hehehehehehehehe. Vale a emoção!

Demofilo: se pudesse escrever mais rápido, escreveria: vai correndo lá! Mas assim: acho que alguns livros existem para a gente. Ou a gente existe para eles. Como um complemento que é necessário para continuar. Como oxigênio em forma de palavras e linhas. Muito já tinha ouvido falar desse livro. E já me encantei com o pouco que li desde ontem. Mas também: o livro tem que bater, se alinhar contigo... Se ele ainda estiver na prateleira, te digo para comprar. Nem que seja para ler, e devolver para que outro também leia. Isso se ele ainda estiver lá - hehehehe. Depois me conta!

Beijos!

Leslie disse...

Em muitos momentos da vida nos sentimos perdidos, mas é muito bom quando recebemos o carinho de pessoas queridas que, às vezes sem intenção, nos mostram uma luz no fim do túnel, algo para nos agarrarmos e nos sentirmos menos perdidos e mais esperançosos.
Sei como é buscar um livro que está esgotado, sou a rainha de fazer isso, correr atrás de livros esgotados pq alguém falou que era bom.
Espero que a leitura te ajude a se encontrar, te de forças para trilhar os caminhos, mesmos que tortos e quem sabe até trilhar um novo caminho.

ericoassis disse...

Também estava procurando esse livro há tempos. Me acalmei só quando soube que a Companhia das Letras vai relançar. Prometeram para ano que vem.

Pelo menos já li, de uma biblioteca de universidade. É sensacional. Aproveite.

(http://www.pontomidia.com.br/erico/)

Lu Thomé disse...

Leslie: obrigada, querida! Já ajudou, sim! E isso é muito bom!

Erico: que ótima notícia! Vou avisar os amigos disso!

Beijos!