novembro 14, 2008

Quieto, imóvel até as pontas geladas dos dedos, estava novamente confinado ao sepulcro de meus ossos, desejando que a angústia acabasse. Pensei no internato, na voz do professor longe dos meus ouvidos - a água oxigenada misturada ao sangue do rato... -, no animal morto sobre a minha classe, em coisas tolas que agora tomavam novo significado. Os demais garotos pareciam atentos, perplexos ante a química da vida, enquanto eu me indagava sobre a morte, a inércia fatal induzida pelo clorofórmio, a boca entreaberta no último hausto, todos detalhes físicos de que se veste o não existir. Viver, morrer, a verdade que sustenta o paradoxo é uma só, um ciclo perpétuo e inviolável de destinos trançados. A única diferença entre o internato e a estância é que, aqui, os ratos ainda vivem.

Solenar, de Rafael Bán Jacobsen

3 comentários:

IcaroReverso disse...

amor e morte, amor e morte, ratos e chinchilas, amor e morte, amor e morte...

Rafael Bán Jacobsen disse...

hahaha! Googlando o meu nome, acabei dando de cara com esta homenagem (acho que posso chamar assim, né?). Nem lembrava direito desse trecho do meu próprio livro. Bom relembrar!...

Lu Thomé disse...

Jacobsen: pode chamar, sim, de homenagem. Terminei de ler o Solenar. E sempre publico aqui um trecho dos livros que eu leio. Gostei! Te dou o feedback qualquer dia desses, pessoalmente. No mais, aguardando ansiosamente o novo livro.

Beijos!