janeiro 19, 2009

Fiquei pensando no que a Nancy escreveu. Na lógica do Vonnegut de analisar tudo ao contrário. E achei tão doce. Talvez tão necessário, vital. Em todos os períodos. Acho que nunca menti tanto para mim mesma como nos últimos dois anos. Acho que continuo fazendo isso. Num looping interminável. Como se estivesse discursando meus modos e motivos. Convencendo, defendendo. Mas, enganada como sempre, não me dou conta que gasto o latim para o espelho, e me debato fervorosamente para livrar meus braços e pernas de mim mesma. Porque sou sempre eu que fecho o cadeado e ato meu corpo às correntes. Sempre eu... Por isso admiro Vonnegut. Ele é contestador e distorce a realidade, inevitável quando se racionaliza ou se ama demais. Mas, ao contrário de mim, é lírico como uma criança.

5 comentários:

Nancy Lix disse...

Esclarecendo meu ponto de vista:

O narcisista enxerga o mundo através do espelho, por isso a visão contrária, tudo, inclusive as pessoas, são meros objetos de extensão dele. O outro não tem valor na realidade dele, pois ele não consegue enxergá-lo, projeta-se nas pessoas e nas circunstâncias, muitas vezes de forma irônica para compensar um ego fragmentado.
De certa maneira, esta fragmentação ocorre com todos os escritores, constroem um alter-ego, como V, um escritor que escrevia contos de ficção científica para custear seus romances. O verdadeiro Kurt é o frustrado professor Kilgore, ou mesmo o jovem Billy:

“Como te amo? Deixa que as maneiras contarei.
Amo-te à profundidade, à largura e à altura
Que minh'alma pode atingir quando se sublima
No pensamento do teu ser e graça ideais."
(Benvindo à Casa dos Macacos)

Quem comanda a pena de Vonnegut é o seu alter-ego narcisista, não a pessoa do escritor, esta que só aparece fragmentada nos personagens.

Lu Thomé disse...

Entendi tua visão... E foi isso que eu quis dizer: gosto do Vonnegut porque ele é verdadeiro. Independente de ser narcisista,
Meu alter-ego é um mentiroso. E crítica literária: só no boteco... De resto, esse blog é um simulacro. Qualquer tentativa de entendê-lo ou decifrá-lo, é por conta do visitante... Não me responsabilizo. hehehehehe

Beijos!

IcaroReverso disse...

O pensamento, ou melhor, o sentimento pensado é sempre uma justificação, um autopressusposto que dá a impressão de não ter pressupostos. Daí a vida parece inteiramente justicada e passamos a viver a vida de acordo com um sentimento que parece construido, mas na verdade é o mesmo espontâneo viver, só que com complicados nomes.

Quer seja de frente, ao contrário, de ladinho e o escambau, todo espelho é apenas um espelho. já a pena de quem pena a vida é uma verdade irrevogável. Como quem respira para além de todas as imagens.

Nancy Lix disse...

Concordo, plenamnete. Palavras e imagens são puff!, desmanchadas pelo vento, enquanto a pena, ah!Essa é verdade irrevogável, não importando que raios de espelhos, ou seja lá o que mais.

Gostei muito da nossa discussão sobre, casualmente, um grande escritor.

Beijinho.

Lu Thomé disse...

Ícaro: confesso... Já li umas 20 vezes o teu comentário. E cada vez ele me parece mais verdadeiro do que na anterior.

Nancy: um brinde às penas. E que todas elas possam ter seu merecido espaço. Sempre!

Beijos!