janeiro 11, 2009

A maior parte da Granja dos Bichos abria-se ante eles - a grande pastagem que se estendia até a estrada, o campo de feno, o bosque, o açude, os campos arados onde estava o trigo novo, ainda fino e verde, e os telhados vermelhos do casario da granja, onde a fumaça saía das chaminés. Era uma tarde clara de primavera. A grama e a sebe em brotação douravam-se aos raios horizontais do sol. Jamais a granja lhes parecera - e com uma espécie de surpresa lembraram-se de que tudo era deles, cada centímetro de sua propriedade - um lugar tão agradável. Olhando pela encosta da colina, Quitéria ficou com os olhos cheios d'água. Se pudesse exprimir seus pensamentos, diria que aquilo não era bem o que pretendiam ao se lançarem, anos atrás, ao trabalho de derrubar o gênero humano. Aquelas cenas de terror e sangue não eram as que previra naquela noite em que o velho Major, pela primeira vez, os instigara à rebelião. Se ela própria pudesse imaginar o futuro, veria uma sociedade de animais livres da fome e do chicote, todos iguais, cada qual trabalhando de acordo com a sua capacidade, os mais fortes protegendo os mais fracos, como ela protegera aquela ninhada de patinhos na noite do discurso do Major. Em vez disso - não podia compreender por quê - havia chegado uma época em que ninguém ousava dizer o que pensava, em que os cachorros rosnantes e malignos perambulavam por toda a parte e a gente era obrigada a ver camaradas feitos em pedaços após confessarem os crimes mais horríveis.

A revolução dos bichos, de George Orwell

6 comentários:

Guilherme disse...

Esse livro é mto bom! Foi um dos primeiros livros "adultos" que li clandestinamente... :-P Bjos!

Trevas disse...

Li no fim do ano passado, colocando abaixo de vez minhas últimas crenças em relação à política e ao seres.
Bjs

Emily disse...

o meu preferido do meu autor favorito! =D

tu gostou então?

Aninha disse...

Pra mim, é um dos melhores finais de livro de todos os tempos. :-)

Mari Thomé disse...

Me sinto honrada de ter sido esta leitura através do meu livro. Leitura que fiz no mesmo dia: Admirável mundo novo.
Gosto muito dos dois!!

Lu Thomé disse...

Gui: hehehehehehe. Boa escolha!

Tati: o livro, realmente, acaba com as esperanças. É muito fácil pular o muro e apelar para a tirania. Fácil, fácil...

Emi: olha! Bom saber! 1984 acabou comigo quando eu tinha 18 anos. Gostei muito desse também! A crueldade verossímil do Orwell dói.

Fofa: hehehehehehehe. Com certeza! Passei a ficar com medo da inteligência dos porcos, da burrice dos humanos e da esperteza dos fortes... Basta ter o cetro para bater na cabeça de alguém. Ê mundo esse!

Beijos, beijos!