maio 18, 2008

No meu caso, quando começo a escrever, o texto já vem praticamente pronto; parece que ele se elabora no inconsciente ou no subconsciente. Eu me comparo a uma piscina: hoje estou inteiramente vazia, mas amanhã estarei cheia d’água. O inconsciente vai alimentando, vai nutrindo, vai juntando a memória convertida em imaginação, que é uma memória falsa, adúltera, recriada pela mentira, pela ficção. Eu acho que a criação literária é uma mitografia, é uma ficção.
Lêdo Ivo

Primeiro de tudo aparece a idéia. Às vezes vagamente, não sei como, outras vezes por um acontecimento qualquer. O Mez da Grippe apareceu quando fui fazer uma matéria sobre a gripe espanhola em Curitiba. Fui para a biblioteca e comecei a pesquisar nos jornais da época, e logo de cara vi que o jornal governista procurava esconder a epidemia, e o jornal da oposição mostrando o que estava acontecendo, as mortes e tudo mais. Estava pronto o livro, grande parte das imagens estava naqueles jornais. O meu trabalho foi de concatenar tudo o que tinha na cabeça e catar mais imagens que se encaixassem no que já existia, e se ligassem com as palavras, ou se transformassem em palavras, e assim me ajudassem a inventar a história. Juntando verdades com mentiras inventadas. Com Minha Mãe Morrendo foi mais fácil ainda. Às vezes memórias verdadeiras, às vezes memórias com pedaços esquecidos e coisas que, sei lá por que, não vêm na memória. E mentiras, mas sempre memória. Até hoje é assim: penso coisas que quero pensar e outras que não quero e não sei o que são: aparecem.
Valêncio Xavier

Como Escrevo?, de José Domingos de Brito

2 comentários:

Anônimo disse...

Isto são trechos de livros, de um livro ou o quê? Faz parte do teu aprendizado? Anônimo veneziano.

Lu Thomé disse...

Sim... totalmente parte do meu aprendizado. Quero te emprestar esse livro. Claro: quando voltares de Veneza.

Beijos!