dezembro 29, 2008

Que horas seriam? A mulher parecia dormir naquela cama que mais parece um altar, uma engenhoca de alavancas. Ele passará a vida gostando de engenhocas - é um relojoeiro. Dedica um minuto para descobrir como aquilo funciona: uma manivela na proa, como de um Ford Bigode, comanda o guindaste. Uma enfermeira chega e se vai - não há muitos sorrisos, mas é assim mesmo que funciona a máquina, com a exata eficiência. Ele se aproxima, tímido, da mulher, já de tranqüilos olhos abertos, e teme que ela espere dele alguma efusão sentimental ou amorosa, o que sempre o desajeita, defensivo. Sempre teve alguma ponta de dificuldade para lidar com o afeto. Ele prefere a suavidade do humor ao ridículo do amor, mas disso não sabe ainda, pernas muito fracas para o peso da alma.

O filho eterno, de Cristóvão Tezza

2 comentários:

Milton Ribeiro disse...

Não sei se viste: http://miltonribeiro.opensadorselvagem.org/o-professor-de-botanica-de-samir-machado-de-machado/

Também devo fazer referências ao livro da Carol num artigo sobre o ano de 2008 que o Digestivo Cultural vai publicar. Estou finalizando a coisa.

Aliás, os três livros de 2008 que destaco são Pó de Parede, El Común Olvido e... o Tezza que estás lendo.

Besos.

Lu Thomé disse...

Oi, Milton! Vi tua resenha no mesmo dia que publicaste (o Samir me avisou na mesma hora - hehehehehehe).

Ah! Vou aguardar esse teu artigo. Me avisa quando estiver publicado. Aliás, falei sobre O filho eterno com o Napp ontem. Um livro que me impressionou muito. Gostei bastante.

Beijos!